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PRISÃO E MORTE DE RUI OSWALDO AGUIAR PFÜTZEREUTER, por Nadyr Rosseti Direito a memória e a verdade - Página 296 Homenagem - Elegia para o Rui
Vadico e Tocatas Conto Rui, ou Marcos, ou Vinicius Reportagens
Carta Resposta de Rui ao Avô Otto Ouça Rui Pfutzenreuter TRIBUTO À ORLEANS DO VADICO
PRISÃO E MORTE DE RUI OSWALDO AGUIAR PFÜTZEREUTER, por Nadyr Rosseti

Veja o texto na integra nesse link.

Direito a memória e a verdade - Página 296

Homenagem - Elegia para o Rui

Vadico e Tocatas
 Zurene Manique Barreto
Relembro...
Orleans jubilosa vivia
sua anual “Semana Cultural”
e vozes uníssonas anunciavam
a Abertura de seu Centenário!

A cidade irradiava felicidade
e seus habitantes participavam exultantes
daquele evento único
marco histórico grandioso!

Foi dignificante apreciar
as danças infantis
participar da Comissão Julgadora
dos concursos de Poesia, Teatro
assistindo tão de perto
todo o desempenho da comissão Pró-Centenário!

Foi gratificante participar das solenidades
do 2º Aniversário da Academia Orleanense de Letras
foi belo observar que Orleans preserva
toda a sabedoria e tradição de seus ancestrais
e incentiva, destaca, enaltece
os valores artísticos de sua terra
e todos os segmentos culturais.

E na tranqüilidade de um lar
“Tio Vadico”, com um olhar longínquo e sonhador
harmoniosamente executava seu violino
enquanto Reinaldo num ritmo compassado
tocava suavemente nas teclas do piano...

Num breve intervalo
“Tia Leony” nos ofertava
o inebriante néctar de Baco
que aquecia tão docemente nossos corações...

E de repente
vislumbrei a estante
e sobre esta, um porta-retratos
emoldurado pelo sorriso sereno de Rui
que nos espreitava carinhosamente.
Sua imagem invadiu o recinto
e transmitiu bem mais do que paz,
traduziu muito mais que saudades...

Evidenciou a ausência de um ser
que marcou presença nesta vida
e que jamais será esquecido;
posto que não se esquece
todo aquele que tão somente praticou bondades
e lutou por justiça social
em prol do bem-estar da coletividade.

À Família Pfützenreuter, com admiração, respeito e muito afeto.
Zurene Manique Barreto
Criciúma, 20 de março de 1985
Conto Rui, ou Marcos, ou Vinicius

RUI, OU MARCOS, OU VINÍCIUS
(Filipe Marchioro Pfützenreuter)

Considerações iniciais acerca deste relato: aos que gostam de Orleans, talvez a leitura lhes interesse por discorrer acerca de um personagem local; aos que gostam de bossa nova, sugiro seguir imediatamente para a próxima obra, pois este conto não discorre sobre temas aristocráticos, tampouco sob a ótica de seus respectivos constituintes; por fim, aos que gostam de literatura, o enredo eventualmente lhes possa interessar, mas ressalto de antemão que a forma com a qual a narrativa é conduzida não possui nada de original, afinal, tal qual o fez Brás Cubas, narro estas memórias de dentro do meu caixão, cujo zinco com que foi forjado impediu esta pobre alma de transcender às alturas.
Bem, chamo-me Rui Oswaldo Aguiar Pfützenreuter, ou Marcos, ou Vinícius. Muitos de vocês, nobres leitores, talvez não se lembrem de mim. Sou o filho jornalista do Vadico, aquele músico casado com a Dona Leoni, aquele que compôs a melodia do hino de nossa cidade, que por anos regeu o coral da Igreja Matriz e que adorava tocar choro em seu violino... Quem sabe de meu pai vocês estejam lembrados... Fui forçosamente trazido para cá em 1972, aos 29 anos de idade. O motivo de minha morte precoce? Quiçá eu tenha depositado muita fé na humanidade e, diferentemente de Dom Quixote, tenha escolhido inimigos mais perigosos do que meros moinhos de vento, os quais ingenuamente me dispus a enfrentar tão somente com a nobreza de minhas ideias e com o meu coração, sempre repleto de amor pelo próximo e de esperança em relação a uma sociedade mais justa e igualitária.
Meus familiares me advertiram dos perigos que iria enfrentar quando, ainda cursando a faculdade de Jornalismo e Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, comecei a travar as primeiras batalhas em prol dos marginalizados. Já naquela época, eu tinha consciência de que o Ensino Superior era um privilégio para poucos e que, por esforço de meus pais e avós, eu fazia parte desse grupo elitizado; por isso não media esforços para informar e politizar aqueles que estavam do lado de fora dos portões da universidade através da publicação de folhetins, abordando-os diretamente nas ruas ou indo ao encontro deles na periferia da grande capital gaúcha. A possibilidade de adquirir e compartilhar conhecimento me satisfazia por um lado; por outro, saber que muitos jovens - muitos com potencial para serem tão ou mais inteligentes do que eu - estavam fadados à ignorância, ao subemprego e, consequentemente, à mercê daqueles que governavam nosso país era algo que me incomodava profundamente.
Na verdade, eu sempre me preocupei com aquilo ou aquele que supostamente não me dizia respeito. Essa parecia ser a minha sina. Ainda adolescente, foram muitas as broncas que ganhei de minha mãe por reiteradamente entregar minhas roupas e calçados ao primeiro desprovido que passasse por mim na rua. A propósito, as amigas a advertiam de que o filho perambulando maltrapilho ou seminu poderia denegrir a imagem da família perante a sociedade orleanense, embora minha mãe se demonstrasse mais preocupada com a forma através da qual conseguiria recuperar dinheiro para me vestir novamente do que com aquela superficialidade.
As coisas começaram a ficar mais perigosas quando me mudei para São Paulo e me integrei ao PORT (Partido Operário Revolucionário Trotskista). Estávamos no auge da ditatura militar e, obviamente, intelectuais e operários que unissem esforços contra o governo e contra os empresários que lhe eram cúmplices eram vistos como terroristas que precisavam ser eliminados. Castelo Branco, Costa e Silva, Médici... os tempos eram difíceis no trânsito entre as décadas de 60 e 70: boa parte do empresariado submetia seus funcionários a longas jornadas de trabalho diário em troca de um salário que mal dava para subsidiar alimentos básicos e pagar os impostos; já os militares, que censuravam qualquer manifestação de desapreço ao regime, jamais tolerariam uma greve, mesmo que o motivo fosse a recusa ao diálogo por parte dos patrões.
Vocês, leitores, devem estar perguntando com que propriedade um estudante de jornalismo, filho de um exator da Coletoria Federal, analisa a situação trabalhista da época. Pois eu lhes digo que trabalhei por seis anos em uma mesma empresa para me sustentar em São Paulo; portanto, conheço a realidade do trabalhador através de um estudo de caso e de uma pesquisa experimental, cuja amostra foi composta por minha própria pessoa e por meus colegas de trabalho. Oportunidades para trabalhar em grandes jornais não faltaram. Os editores-chefes, contudo, estavam mais interessados no meu domínio da modalidade culta da língua do que no conteúdo e fundamentação do meu discurso. Marx, Trotsky e Posadas certamente lhes causariam repúdio. Não quis me prostituir. Nem mesmo por um segundo passou pela minha mente ascender profissionalmente com aquilo que era a minha grande paixão – o jornalismo – e deixar meus companheiros operários para trás. Éramos ratos domésticos engaiolados a correr em uma esteira circular sem nos movermos do lugar. Ainda assim, era em meio aos operários que eu me sentia bem, imerso na humildade e solidariedade que compunham o seu contexto social. Eu não iria abandoná-los, jamais. As investidas contra o sistema foram se ampliando, meus colegas de militância e eu promovíamos reuniões clandestinas com os trabalhadores, escrevíamos jornais igualmente clandestinos e distribuíamos para a população nas ruas da maior cidade sul-americana. Aqueles do grupo que dispunham de maior formação acadêmica se expunham ainda mais, promovendo palestras sobre o cenário político nacional e propondo caminhos para uma revolução não armada. Eu estava entre estes.
Com toda aquela exposição, sabia que os militares já estavam à minha procura. Não reivindicava nada para mim: enriquecer não me apetecia, não aspirava a nenhum cargo político, tampouco desejava prestígio na academia ou mesmo diante da massa. Ainda assim, meus companheiros e eu éramos considerados um perigo para a nação.
Enfim, o meu dia havia chego. O DOPS decidira investir pesadamente contra os militantes naquela manhã nebulosa. Os agentes já haviam torturado trabalhadores em praça pública e prendido tantos outros sem mandado de prisão e sem lhes conceder direito à defesa. Vândalos em meio aos bem-intencionados, certamente, existiam; entretanto, não houve qualquer tipo de distinção. Eu observava tudo a distância, mais precisamente, de um apartamento no quarto andar de um edifício antigo, no qual um casal de amigos havia corajosa e fraternalmente me concedido abrigo. Àquela altura, minha residência provavelmente já havia sido arrombada pelos militares e, se não houvesse empreendido fuga, já estaria em suas mãos impiedosas e sanguinolentas. Eu estava seguro, mas temia por meus companheiros que, naquele horário, estavam trabalhando no fechamento da edição de nosso jornal semanal nos porões de um prédio próximo. Por uma fenda entre as cortinas amareladas que encobriam meu observatório, vi os agentes do DOPS rumando para lá. Não havia múltipla escolha: ou eu me entregava para os militares, ou todos os meus colegas e, juntamente com eles, todos os arquivos que denunciavam e incriminavam o poder público nacional seriam dizimados.
Detive-me por alguns instantes. Lembrei-me de minha mãe sentada na sala de estar, costurando colchas de lã de carneiro que comporiam o enxoval da próxima noiva a se casar na Paróquia Santa Otília. Lembrei-me de meu pai escrevendo à mão as notas de sua próxima composição em uma folha pautada. Recordei-me das águas frias do Rio Tubarão em que meus irmãos e eu nos banhávamos, mesmo diante do veto paterno. Por fim, veio-me à mente a carta que meu avô havia me endereçado, na qual ingênua e zelosamente tentava me dissuadir da militância, antevendo que eu nunca mais regressaria à Cidade das Colinas. Então, livrei-me dos binóculos, verifiquei se havia fichas telefônicas no bolso das calças e desci correndo as escadas em direção ao orelhão que se encontrava na esquina. Só houve tempo para ouvir um suspiro do outro lado da linha - provavelmente, do Glauco - e dizer “libertad”, que, em nosso código, significava “fujam imediatamente”. De súbito, senti um forte golpe em minha nuca e, quando pude despertar, já estava em uma das unidades de tortura do DOPS: o verdadeiro inferno de Dante.
Não se preocupem, estimados leitores, pois não dedicarei texto à descrição das técnicas de tortura das quais fui vítima. Não pretendo reproduzir aqui o sensacionalismo habitual com o qual a imprensa brasileira tem mantido o interesse de seu público nos últimos anos. Prefiro que vocês se lembrem das causas pelas quais lutei juntamente com tantos outros militantes, alguns dos quais são hoje reconhecidos como mortos e desaparecidos políticos. Os leitores mais assíduos talvez estejam se lembrando de Os Sertões, de Euclides da Cuja, que narra a Guerra de Canudos. Seu protagonista, Antônio Conselheiro, comoveu-se com a situação do povo baiano, o qual, mesmo vivendo praticamente na miséria, ainda precisava conceder ao governo, sob a forma de tributos, parte de sua produção agrícola ou de seus poucos e raquíticos animais, ou ainda, o pequeno lucro obtido com as respectivas vendas. Canudos surgiu, então, como uma comunidade alternativa, onde tudo aquilo que se produzia era dividido igualmente entre todos os seus membros, ninguém prosperava a partir da miséria alheia. Se a ambição acometeria alguns dos habitantes de modo a comprometer o seu desenvolvimento, não sei, mas certamente o projeto de Conselheiro era mais coeso do que o dos republicanos.
Embora os contextos espaçotemporais sejam obviamente distintos, tanto o povo de Canudos quanto os militantes de esquerda foram eliminados como criminosos. Nenhum deles almejava lucrar sobre o Estado ou ambiciosamente assumir seu poder, o que ambos desejavam era simplesmente uma vida mais digna para seus pares, já que seus representantes legais não se mobilizavam para tanto. Esses são apenas dois exemplos entre tantos outros presentes na história da humanidade, alguns com personagens mais ou menos conhecidos, tal qual Nelson Mandela e Chico Mendes, outros cujos componentes permanecem no anonimato. Por isso, não me vejo como um herói, sou apenas um dos muitos que dedicaram suas vidas a causas coletivas.
Para finalizar, gostaria de ressaltar que, se hoje me foi dada a oportunidade de narrar estas memórias do interior de meu caixão, é porque meu pai não poupou esforços para, ao menos, recolher o meu corpo, apelando ao DOPS e, até mesmo, à Presidência da República. Vejam que ingrata ironia: ele, que cumpriu com suas obrigações para com a pátria, servindo honrosamente ao exército na Revolução Constitucionalista, teve seu filho assassinado pelos próprios colegas de farda.
Hoje, minha família me enterra sem saber se, de fato, sou eu quem está dentro da inviolável urna fúnebre sobre a qual deposita suas lágrimas, ainda que segura da incoerência de meu atestado de óbito, no qual consta “morte por anemia aguda traumática”. Nem sequer os vermes da minha querida Orleans terão o mesmo benefício dos vermes de outras terras. Os daqui certamente enfrentarão mais dificuldades para penetrar no zinco e roer as frias carnes de meu cadáver do que aqueles que corroeram Brás Cubas em seu nobre caixão de madeira envernizado.

Reportagens

Carta Resposta de Rui ao Avô Otto

Porto Alegre, em 18 de maio de 1964
Estimado avô Otto

Sensibilizado com o recebimento de vossa carta, e honrado com suas palavras confortantes e estimuladoras, busco agora respondê-la a altura do respeito que possuo por vós.

Sem exagerar devo dizer ao meu avô que aquela compreensão e simplicidade em sua missiva, não são adquiridas tão facilmente. São resultados de convicções pessoais e de íntegra personalidade obtidas pelo indivíduo – nas circunstâncias e no controle de sua índole – e eu, por mais estudos que obtenha, dificilmente alcançarei esta posição de invejável simplicidade, compreensão e personalidade, tão nítidas no comportamento do meu avô, dos quais me ufano e vanglorio.

Meu avô, nós nos encontramos em duas posições diferentes atualmente, impulsionados pela situação histórica do meu e do vosso momento. De vosso lado tudo é paz: as armas foram recolhidas, as tensões vencidas, os obstáculos transpostos, o caminho percorrido, missão cumprida. A geração que o senhor simboliza venceu e está realizada. Se formos medir vossa vida – cujo padrão e o cumprimento dos deveres foram exigidos pela história – constataremos e provaremos a afirmação de que as tarefas foram cumpridas. O senhor já ultrapassou o último ponto que o padrão comparativo pode medir. Do outro lado estou eu, o neto do avô que se realizou. Impõe-me agora o cumprimento do meu dever no momento histórico: desempenhar as missões reclamadas pelas necessidades da presente sociedade. Qual é o meu dever?

Seria ignorância minha falar que o meu dever é diferente do dever que foi cumprido pelo senhor. Mas, no entanto, existe uma diferença. Para o sustento de seus filhos, meu pai e tios, o senhor trabalhou e esmerou-se com muito sacrifício para, além de transmitir vossos conhecimentos e experiência, conseguir dar um estudo no máximo de primário, do elementar. Já os seus filhos, graças aos ensinamentos herdados, puderam dar aos seus filhos a distinção do ensino mais avançado. Hoje, quando tributo homenagens aos que permitiram esta posição que atualmente ocupo, não posso esquecer meus avós. Foram eles que construíram a primeira pedra, deram a primeira caminhada. Quantos sacrifícios, quanta gente deu duro para que hoje desfrutasse do privilégio de cursar o ensino superior, freqüentar a universidade. E, meu avô, são pouquíssimos os jovens que atingem as faculdades. Raros são os estudantes que serão universitários. Não que deva ser assim, universidade só para filhos de gente de bem, mas é porque está tudo errado no ensino. Veja só meu avô: quem são os filhos de Orleans que gozam do ensino universitário? Na nossa família sou um dos poucos. E os filhos dos marceneiros, dos empregados, dos alfaiates, dos pobres mineiros? Que responsabilidade a minha: estou representando milhares de jovens orleanenses que me aguardam, esperando de mim a colocação dos meus conhecimentos aos serviços da coletividade. Essa minha retribuição, aos operários e agricultores que sustentam o ensino gratuito da universidade, aumenta muito mais quando me vejo dentro do curso de Jornalismo e de Sociologia e Política. Não permita a minha consciência honesta que as minhas atividades após o término dos cursos universitários estejam voltados só para mim. Não seria jogar tudo fora, queimar o repertório de bens comuns que o senhor, meu pai e meus contemporâneos me ajudaram e ergueram até o máximo de suas possibilidades? Na hora difícil da política brasileira estou trabalhando, fiel a minha responsabilidade. No futuro, a juventude que viverá integralmente a moralidade de uma existência social, saberá agradecer a resignação, as perseguições, os sacrifícios que a juventude de hoje experimenta com cabeça erguida para permitir que a do futuro viverá melhor.

Por isso, meus avós, sempre reconhecerei o vosso papel e em todas as oportunidades agradecerei com muito amor e sacrifícios que vocês todos fizeram para nós, para a juventude presente. A nossa retribuição é o nosso próprio esforço para a feliz continuidade das juventudes futuras, das novas gerações da posteridade.

Finalizando aproveito para enviar abraços aos demais parentes, ao tio Paulo, tio Pompílio, tia Nelly, tia Emília, aos primos e amigos.

Com suas bênçãos, despeço-me
(ass) Rui   

Ouça Rui Pfutzenreuter

Ouça

TRIBUTO À ORLEANS DO VADICO
TRIBUTO À ORLEANS DO VADICO
Sueli Tereza Mazzucco Mazurana
1. Os senhores e senhoras,
Os jovens e as crianças,
Eu saúdo alegremente
Nestes tempos de bonança..
Orleans é a nossa terra,
E este poema encerra
Sua glória e sua pujança.

2. Sua glória e sua pujança,
O trovador tem razão,
Pois o povo orleanense
Mora no meu coração.
Aproveito este instante
Para contar pra aniversariante
Uma história de paixão.

3. Uma história de paixão
Que envolve esta cidade.
Diz respeito a um artista
Que foi unanimidade
Entre os artistas de então
Que tinham no cidadão
Um exemplo de lealdade.

4. Um exemplo de lealdade
Eu faço verso, e não nego
Que esse homem lutou
Para dar visão ao cego,
Para dar ouvido ao surdo
E para dar voz ao mundo.
Fez da sua vida um credo.

5. Fez da sua vida um credo
Eu disso tenho certeza
Pois Osvaldo Pfützenreuter
Não me causou estranheza.
No dia em que o conheci,
Na sua vida percebi
Umas nesga de tristeza.

6. Umas nesga de tristeza
Que se transformou em tormento.
A morte do filho amado
Fez a história do momento.
E esse pai idolatrado,
Com o peito estraçalhado,
Viveu a dor desse tempo.
7. Viveu a dor desse tempo.
Um horror! Anos de chumbo
Que carregavam o Rui
Aos subterrâneos imundos.
Vadico e seu violino
Buscaram compor um hino
A esse filho, herói do mundo.

8. A esse filho, herói do mundo
Que agora descansa em paz
Vai ao reconhecimento
E a seu pai, que também jaz
Entre outros artistas, tantos,
Que calaram o seu canto,
Mas sua história, jamais!

9. Mas sua história, jamais.
É uma história comovente.
Vadico, do cavaquinho,
Da Banda Estrela do Oriente,
Filho de Otto e Hermelina,
Desta terra de colinas
Amou sua arte e sua gente.

10. Amou sua arte e sua gente
E a comarca de Urussanga.
O conjunto Bando Alegre,
Os corais, a escola, a banda.
Da Matriz foi organista,
E seu filho, ativista,
Num cenário de esperança.

11. Num cenário de esperança
Que era o Brasil de então,
Numa época de luta,
O sonho levado ao chão,
O jornalista empunhando
Sua caneta, e o comando
Vinha de tantas mãos!

12. Vinha de tantas mãos
Mas tinha mão orleanense
Que perdeu a juventude
Deixando o mundo em suspense
Que a liberdade roubada
Devia ser recuperada
Pelo momento presente.

13. Pelo momento presente
E pelo tempo há de vir.
Em nome desse passado
De nossa história, infeliz,
A vigília permaneça.
E o povo jamais esqueça
Dos heróis deste país.
14. Dos heróis deste país
Que deram a vida por nós.
Que sej feita justiça,
Que pague quem foi algoz.
Sigamos, que a vida é bela!
E a Pátria verde-amarela,
Terá sua vez sua e sua voz.

15. Terá sua vez sua e sua voz
Também a Orleans gloriosa
Que celebra suas conquistas
E se enfeita, todo prosa,
Festejando o centenário
Num magnífico cenário
De terra prodigiosa.

16. De terra prodigiosa
Onde a arte é praticada
Nas letras da Academia.
No paredão dependurada
A arte encanta os olhares,
Como se fossem altares
Que ali fizeram morada.

17. Que ali fizeram morada
E aqui nos dizem quem somos:
Somos terra da cultura
Da neblina e dos assomos.
Os encantos no canto que encerra,
E vem ninar nossos sonhos.

18. E vem ninar nossos sonhos
Sonhos de paz e harmonia.
Vamos cantar Orleans
Com toda a nossa alegria.
Mandar a tristeza embora
É a tarefa de agora,
É o dever deste dia.

19. É o dever deste dia
Cantar e sermos felizes.
Vamos conclamar o Stelle
E o Hermelina. O que dizes?
As bandas, os seresteiros,
Todos os entes festeiros
Que aqui têm suas raízes.

20. Que aqui têm suas raízes,
Chamaremos os escritores
Para escrever a epopeia
Com as tintas multicores
Colhidas ao fim do dia
Ao som da Ave-Maria.
Sonata de mil amores.

21. Sonata de mil amores.
Uma história de paixão
Que envolve esta cidade
Num cenário de emoção.
Tantos agostos passados,
E os heróis, atualizados,
Erguem o sonho do chão.

22. Erguem o sonho do chão
E lhe dão asas, sem medo,
E colhem gotas de orvalho
Para irrigar o seu credo,
Que é ideal que não morre,
E que as andorinhas da torre
Semeiam, de manhã cedo.

23. Semeiam, de manhã cedo
Esse ideal, que não morre!
Eu disso tenho certeza,
Pois a notícia que corre
É que Vadico escuta
E ordena que a batuta
Suba até o alto da torre.

24. Suba até o alto da torre
Para reger o coral
De todas as vozes juntas
Numa homenagem tal
Que esta cidade mereça
E que o poeta não esqueça
Deste tempo especial.

Orleans, 04 de maio de 2013.
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