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Colaboradores

Rogerio Krieger - maestro-violinista
Moacyr de Azevedo - Cavaquinho
Sebastião Mobile - Violão 7 cordas
Marcos Antonio Filgueiras - Cavaquinho
Jose Antonio Scholtz - Ze do Bandaneon
Maria Cecilia Krause - pianista
Andre Peixoto - Advogado-pianista
Mauricio Dottori - maestro
Eldadi Moreira Marcelino - violonista
Estudio fonográfico Oribes Correia Neto
Hilton Darde - consultor
Edson Ribeiro de Lima - revisor
Herculano Araújo Jr.

Homenagem a Sebatião Mobile
Um sete cordas de alma brasileira

Após o telefonema realizado a sua filha Silvia, sua resposta foi a seguinte: c Sr Rogério, ficamos muito contentes pelas suas lembranças em relação ao meu pai. Eu me lembro que meu pai sempre dizia que a música para ele era como se fosse o oxigênio, que se tirasse dele ele não poderia viver!!! E ele sempre dizia também que as melhores amizades que ele conquistou foi através da música, se o senhor desejar poderá escrever essas coisas que ele sempre falava e pode acrescentar que além de excelente músico foi o melhor pai do mundo!!!! Obrigada!
Silvia Mobile Woyama.
(Filha de Sebastião Móbile)

Então resolvo comentar :
Um Sete Cordas de alma brasileira

Sobre Sebastião Mobile:
Neste dia 20 de maio meu amigo e companheiro de seresta Sebatião Móbile, estaria fazendo aniversário. Então, não me contive, peguei o telefone e conversei com uma de suas filhas, a Silvia, que estava na cidade de Pindamonhangaba, no estado de São Paulo. Uma agradável e saudosa conversa, que valeu para lembrar este grande "chorão", um exímio 7 cordas e de valiosa alma humana. Homem apaixonado e sentimental, profundo conhecedor de vários estilos e enorme repertório, executante de fino requinte e de gosto refinadíssimo, sendo o choro sua preferência e grande paixão. Tive o prazer de conhecê-lo aqui em Curitiba, onde com o Zé do Bandaneon (Antonio Scholz) e o cavaco Marco Antonio Filgueiras, passávamos horas a fio "velhas" e saudosas músicas. Sebastião incentivou-me a tocar choro, íamos passando e nunca faltava Naquele Tempo, Tico-tico no Fubá, e valsas como Clube XV, Último Beijo, Dirce, Sueli e Rapaziada do Bráz, dentre tantas. Com muito cuidado começávamos pelas preferidas do repertório do Vadico, de autores que foram seus companheiros, peças como Olhos de Duas Cores, Recordação de Eponina, Tua beleza é meu Encanto e Madalena Breciani. Sebastião emocionado pedia bis, elogiava a beleza destas riquezas musicais, que naquelas noites frias nos entretínhamos noite afora. Aí, eu brinquei com Sebastião e lhe disse: “Se Vadico lhe tivesse conhecido não se largariam mais, porque seus gostos e hábitos musicais são muito parecidos”.

Como eu reorganizei todas as partituras de Vadico, que entitulei de “As preferidas de Vadico”, passávamos muitas vezes os álbuns deste repertório. Numa destas passagens musicais que fazíamos, quando lia uma partitura, logo no início, fui advertido: “O quê? Seu pai tocava isto: Clube XV ?” E nos fez uma longa explicação de como esta valsa foi sucesso naqueles tempos passados, onde existia programas radiofônicos de grande audiência nacional, e que utilizavam esta música como tema principal. Depois outra surpresa: “Seu pai tocava isto?” Era Retalhos D’Alma, Lágrimas de Virgem, Sóror Beatriz, Os Pintinhos no Terreiro...,e por ai afora, sempre me explicando, dando-me outros conhecimentos daquelas obras, sobre o autor, como e porque surgiu, onde foi executada, peculiaridades da tonalidade e alguma passagem musical; fazia questão de demonstrar; e mais, para ele havia sempre alguma relação com algum episódio, seja pelo nome da obra e o conteúdo da letra. Muito bem, eu ouvia aquilo fazendo uma ligação porque desde a minha infância escutava muita música de meus pais e tios, por isto ficava surpreendentemente deslumbrado e muito interessado ouvindo Sebastião, percebendo que em suas qualidades, havia muita semelhança entre ele e meu pai, e era a música que transportava os benefícios desta nobre e espirituosa correlação de afinidades.

Sebastião relembrava com muita emoção de seus companheiros e amigos de rodas de choro lá de São Paulo. Citava chorões que nem me lembro mais dos nomes: uma vez presenteou-me com um CD de um menino de 15 anos, e fez questão de muitas vezes repetir: “Este menino toca muito choro, heim! E já é um grande bandolinista”, hoje sabemos que se trata da revelação nacional, do reconhecido bandolinista Danilo Brito.

Sebastião adotou o Paraná para viver e aqui, longe de sua família, tinha uma vida solitária e humilde, sendo a música sua praia, seu violão lhe projetava a sua alma e seus elevados sentimentos. Acho que Curitiba um dia ainda lhe fará uma honrosa homenagem, porque diante de tantos lugares importantes em que deu sua contribuição musical preferiu aqui viver, porque esta terra lhe proporcionava também a satisfação musical que seu talento precisava conviver e expandir-se.

Em alguns fins de semana, Sebastião não ficava em casa, não se achava o cara, depois me dizia que tinham vindo buscá-lo para tocar em Antonina e outros lugares de seresteiros. Sempre mencionava que havia tocado com uma flautista: “que sendo muito jovem tocava choro muito bem, e tinha muito futuro”. (depois vim a conhecer, se tratava de Ana Cristina Fumaneri fazendo bela parceria com o 7 cordas Vinicius Chamorro ).

Tocamos uma vez na Lapa, aqui no interior do Paraná, no Hotel do Márcio Assad que bem nos ajudou no pandeiro, e também o forte reforço do cavaco Silvio Maravilha. Numa outra vez, na Páscoa de abril de 2004, nos apresentamos em Orleans no Museu ao Ar Livre, com o Banana, e os acordeonistas Wilson Westphal, de Tubarão, e José Paulo Boava, de Criciúma, também nos prestigiaram tocando neste encontro. No dia anterior, tocamos uma tarde inteira na casa do Henriquinho em Tubarão (que estava acamado, mas não nos deixou ir embora sem aquele delicioso café da Dona Norma) com o Haroldinho do cavaco dando sua sonoridade formidável. E ainda naquela viagem de volta vieste reclamando que "tocamos muito pouco". Realmente tínhamos que ter tocado muito mais. Hoje entendo melhor tua identificação com a música, esta brasilidade que tens com teu esplendor humanitário e patriótico, sendo estes reflexos diretos da luta que tiveste em tua juventude em recompor tua vida pelas perseguições que sofreste do regime golpista de 64. Você faz falta aqui! Nos fins de semana a lembrança de nosso choro é incontida! Meu violino, como eu, sente sua falta, de sua cordialidade e irreparável amizade. Daqui debaixo, com alegria e saudade ao mesmo tempo, procuramos manter viva a sua presença, mas sentindo a sua falta na roda, de seu dedilhado e acordes que tão bem qualificavas as melodias em bordões e harmonia que aprendeste na escola da vida tão bem a dominar teu instrumento, o Sete Cordas que tinha muito da verdadeira alma brasileira.

Silvia, acho que você e seus irmãos precisavam conhecer este meu pequeno depoimento, dos nobres valores musicais e, sobretudo, humanos de seu pai que, por mais que me esforce, aqui pouco cabe, mas entendam que é minha singela e humilde maneira de também homenageá-los. Saibam que, todo o desenvolvimento e forma que este projeto está tomando, tem muito a participação e colaboração, o perfil, a brasilidade de seu pai. Por isto fico grato a todos vocês, e neste dia de aniversário de seu querido pai, tomo a iniciativa de abraçá-los em nome e por todos os companheiros de roda musical daqui do Paraná.

Parabéns amigo!
Rogério Pfützenreuter
Curitiba, 20 de maio de 2010

Comentário I
Parceiros: Preciso registrar aqui comentários e elogios que Sebastião fazia sobre determinados companheiros com os quais fez parcerias. Um deles é do acordeonista Neuto Baú, do qual muitas vezes dizia ser músico de impecável execução, dominando seu acordeon em vários estilos. Dizia que eu deveria procurá-lo para conhecer seu formidável desempenho musical.

Comentário II
Rojão: Uma vez fomos buscar um cachorro, porque Sebastião precisava de uma proteção maior para sua casa. Como era dia de São João, ele escolhendo o animal, prontamente gesticulou com o dedo apontando para o cachorro dizendo: “como hoje é dia de fogos seu nome será Rojão”. Um dia quando tocávamos, eu pedi ao Sebastião que fizesse algum ritmo qualquer, mas que a cada tempo puxasse aleatoriamente alguma nota grave do lado do cavalete de seu violão, fazendo como um estalo. Improvisamos ai por algum tempo uma cadência em repetidas escalas, que se desencontravam no ritmo e aí tivemos uma idéia de tema musical. Por falta de tempo, e insistência não concluímos este trabalho. Mas o que aconteceu, vendo hoje isto, é que quando Sebastião viajou seu cachorro Rojão fugiu, e seu terreno e moradia, no bairro do Cabral, foi invadida! Foi muito triste ver aquela situação, sequer os poucos pertences que lhe sobrou à sua família pôde servir.

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